Como começar a viver uma vida verdadeiramente Mindful

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Durante muito tempo andei com o piloto automático ligado.

Principalmente depois de ter tido a minha primeira filha.

Achava que para conseguir dar vazão a tudo, às muitas horas de trabalho por dia num projeto enorme e desafiante ao mesmo tempo que o meu marido estava num projeto igualmente estimulante, teria de ter um enorme controlo de tudo e tornar-me especialista em multitasking.

Eram muitas as vezes que ligava em cima da hora à minha sogra a pedir que fosse buscar a minha filha à escola, quando deveria ter sido eu.

Um dia soube que estava grávida do meu segundo filho. Uma gravidez muito desejada.

Quando chegou a altura de contar à minha filha que ia ter um irmão, sentei-a no sofa, demos um abraço e dei a notícia. Ela ficou muito, muito feliz. Há muito tempo que andava a pedir um irmão. Deu-me outro abraço e com esse abraço surgiu-me a questão mentalmente: como vamos ter tempo para tudo, para todos, para nós?

O meu segundo filho nasceu em 2008. Foi um bebé incrivelmente fácil desde que nasceu e durante o primeiro ano de vida. Dormia sestas enormes que me permitiam fazer uma das coisas que mais gosto. Estudar e explorar novos conhecimentos.

Andava sempre à procura de ”qualquer coisa”. Mas não sabia bem o quê.

Andava há anos a meditar, em alguns períodos com mais intensidade e outros com muito menos. E estava numa altura da minha vida em que senti um chamamento profundo e foi aí que descobri pela primeira vez a palavra Mindfulness.

Inicialmente nem conseguia escrever a palavra direito. Ficava sempre com dúvidas se era com um ou dois Ls. Mas isso não me impedia de explorar e de experimentar.

Em 2009 fui ao meu primeiro retiro de Mindfulness. Foi com três monges budistas vindos da comunidade do Thich Nhat Hanh, Plum Village, em França. E senti-me imediatamente em casa. Percebi que não precisava de estar sempre em grande esforço para conseguir fazer tudo aquilo que ”tinha” de fazer.

Tinha dispendido muita energia em tentar criar e manter a vida da forma que achava que ela deveria estar, em vez de aceitar a vida exatamente como ela é.

Tudo ressoava em mim e o chamamento de dedicar mais tempo ao Mindfulness cresceu.

Comecei a minha caminhada de Mindfulness, um passo de cada vez, até ao dia uns anos mais tarde que me certifiquei como Instrutora de Mindfulness.

Quando comecei a falar de Mindfulness, ninguém sabia o que era.

Eram pouquíssimas as pessoas que conheciam a palavra… Mind…quê?!

Hoje em dia é diferente.

Quando faço palestras ou formações, é raro haver alguém que não tenha ouvido falar pelo menos do termo, enquanto que há apenas alguns anos atrás era raro haver alguém que tivesse ouvido falar.

Mindfulness transformou-se para mim num estilo de vida. Ás vezes desvio-me, mas sei que está tudo bem. Está porque o Mindfulness permite-me sempre reconectar com a minha força e sabedoria interior.

Mas o que é então Mindfulness?

Bem, a tradução mais vulgar para português é Atenção Plena, ou às vezes Consciência Plena.

Eu gosto de utilizar outra tradução, Presença Consciente, simplesmente porque acho que descreve melhor o que é para mim Mindfulness.

Quando pratico Mindfulness estou Conscientemente Presente, agora, observando propositadamente este momento, sem julgamentos. E com compaixão. Repara nesta experiência, neste momento.

Dentro e fora de mim. Podemos fazer esta observação formal, através da meditação Mindfulness ou informal, utilizando as nossas experiências do dia-a-dia como a nossa prática.

Para entendermos melhor o que é Mindfulness é importante falarmos das suas raizes.

A meditação Mindfulness tem as suas raízes em práticas budistas que têm mais de 2500 anos.

O príncipe Siddharta Gautama (mais tarde o Buda, o iluminado), dedicou a sua vida à busca da causa do sofrimento e o alívio do mesmo. Buda discursou sobre Satipaṭṭhāna, que é a palavra em páli para o conceito budista das bases do Mindfulness. Ele falava sobre a observação, em presença consciente, do corpo, das sensações, da mente, e dos objetos mentais e recomendava a pratica do Mindfulness como uma forma de ultrapassar o luto, tristeza, dor e ansiedade, para atingir a felicidade.

Em 1979 o Mindfulness começou a ser utilizado terapeuticamente pelo Dr Jon Kabat-Zinn e os seus colegas na Clínica de Redução de Stress da Universidade de Massachusetts, através do conhecido programa de 8 semanas, MBSR. Um programa já disponível em Portugal.

Muitos anos mais tarde, em 2001, outro programa, MBCT, igualmente de 8 semanas foi desenvolvido pelo Mark Williams, John Teasdale e Mindel V. Segal para combater depressão. Um programa hoje em dia recomendado pelo serviço nacional de saúde britânico a pessoas que já sofreram três ou mais episódios de depressão. Na sua essência os dois programas são bastante parecidos, com públicos ligeiramente diferentes, e têm na sua essência a ênfase da observação consciente e livre de julgamentos da própria experiência deste momento. As evidências científicas dos muitos benefícios da prática de Mindfulness são nomeadamente baseadas nos estudos destes programas.

Quando falo em Mindfulness tenho reparado que uma das coisas mais importantes para as pessoas entenderem o que o Mindfulness é, é falar também daquilo que o Mindfulness não é.

 

Existem muitos mal-entendidos em relação à meditação e meditação Mindfulness. Partilho aqui algumas:

1. Um dos princípios tem a ver com a necessidade de esvaziar completamente a mente

Uma ideia que faz com que muitas pessoas acham que não sabem meditar, que são maus a meditar ou que nunca vão conseguir meditar. Fica já claro que quando praticamos meditação Mindfulness não estamos a tentar esvaziar a nossa mente. Estamos a observar os pensamentos e podemos reparar em padrões típicos que temos e nas historias que contamos (que são muitas e as vezes dignas de um Óscar!). A maior parte das pessoas não estão conscientes destas histórias, sendo que são essas mesmas histórias que influenciam diariamente as nossas escolhas e ações. Quando tornamos as histórias conscientes podemos mais facilmente avaliar o que nos serve e o que não nos serve.

2. Não é preciso sentares-te com as pernas cruzadas numa posição de Lotus, numa almofada, no chão para meditar

Não é a posição que é o mais importante, mas a tua intenção e a tua atitude enquanto praticas. Se vamos praticar Mindfulness e prestar atenção, então claro que é útil estarmos numa posição alerta, mas relaxada. Podes utilizar uma cadeira, podes-te encostar à uma parede. E também podes deitar-te, preferencialmente no chão (mas pode ser boa ideia evitar esse se queres praticar à noite e não queres adormecer). Podes ajustar a posição se sentires algum desconforto.

3. Mindfulness não é necessariamente uma prática budista

Muitas religiões recomendam diferentes práticas meditativas. O islão e o hinduísmo têm as suas práticas, e o cristianismo tem práticas como por exemplo a oração contemplativa, uma prática muito Mindful.

4. A intenção da meditação não é conseguir relaxar, nem conseguir atingir nenhum estado específico ou alterado

Podemos sentir um maior relaxamento com a prática, mas não é nenhum objetivo. Quando praticamos meditação Mindfulness estamos a abrir-nos para o que estiver a acontecer. Agora, neste momento presente. Enquanto meditamos, pensamentos e emoções irão aparecer, e as vezes até podem ser coisas desafiantes, o que nos permite estar com o que é difícil num momento ”bom” e que nos vai ajudar a lidar com estas coisas no dia-a-dia.

5. Mindfulness não tem nada a ver com pensamento positivo

Não temos de adorar cada aspeto da vida e achar tudo espetacular. Quando praticamos Mindfulness estamos a abrir o coração para todas as experiências. O que parece bom. O que parece mau. O que parece neutro. Tudo merece a mesma atenção. Quando temos esta abertura entendemos como tudo é impermanente… como vem, fica um pouco e vai.

6. Mindfulness não é uma cura milagrosa

Não é como uma ida ao ginásio. Não é uma dieta. Não é um medicamento. Uma vontade de sentir menos ansiedade, menos stress, mais foco e concentração, ou até de perder peso pode nos levar até a prática de Mindfulness. Uma vez que temos a intenção da prática, podemos agradecer o que nos levou até ela e deixar essa razão ir. Dedicando nos a prática sem expectativas e sem julgamentos. Se nos agarrarmos à um objetivo especifico esse objetivo vai conduzir a nossa pratica e limitar a nossa experiência. Facilmente transforma-se numa expectativa, e com o Mindfulness não queremos ter, nem temos, expectativas sobre como algo deveria ser. Estamos a treinar o nosso ”músculo de Mindfulness” para ele se tornar cada vez mais forte. Ficamos com a prática também nos momentos menos agradáveis com uma vontade de estar com o que é em cada momento.

7. Só porque praticamos Mindfulness não quer dizer que nunca mais vamos ficar tristes ou frustrados

Quer dizer que vamos conseguir lidar cada vez melhor com a tristeza e a frustração quando ela aparece.

8. Viver no momento não quer dizer que nunca pensamos no futuro ou que nunca falamos em memórias

Viver no momento que dizer que estamos a prestar atenção à nossa experiência enquanto ela está a acontecer. Quando sabemos realmente o que está a acontecer ficamos mais aptos para decidir e influenciar o que vem a seguir.

 

Quando partilho as coisas que o Mindfulness não é, as pessoas costumam relaxar em relação à prática. Entendem que aqui não existe  o certo e o errado. E assim, ganham uma nova vontade e energia para a sua prática.

Eu própria demorei muito tempo a entender o que a meditação e o Mindfulness não era.

E quando percebi o que não era, foi também quando consegui verdadeiramente começar a viver uma vida Mindful.

Principalmente porque soltei muita da pressão que colocava em cima de mim e no meu desempenho. Percebi que às vezes apareciam muitos pensamentos enquanto meditava, outras vezes menos, e algumas até poderia parecer vazio cá dentro.

Mas isso não quer dizer que meditava bem, nem mal. Em todas as situações fazia apenas uma coisa – meditava.

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